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Matéria publicada na Revista Época, número 427, de 24/07/2006.

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Ciência sem cobaias?

Será possível fazer pesquisas de novos remédios sem sacrificar animais?

Gisela Anauate

Você aceitaria tomar um remédio que não tenha sido testado antes em animais? Os defensores dos animais dizem que aceitariam. E vão além. O movimento contra a vivissecção – utilização de bichos na ciência – se torna cada vez mais expressivo no mundo todo. No Reino Unido, onde os grupos de defesa dos animais são fortes, ocorrem até ações terroristas para barrar pesquisas científicas. Há dois anos, extremistas desenterraram e roubaram o corpo da sogra de um criador de cobaias como protesto. A Universidade Oxford está construindo um laboratório de pesquisa animal estimado em 20 milhões de libras (R$ 80 milhões) e enfrenta agressões diárias. A empresa de construção que iniciou o projeto abandonou-o em 2004, após ameaças aos funcionários. Os trabalhadores da construtora atual são obrigados a usar máscaras para não ser reconhecidos pelos ativistas.

 

MATÉRIA-PRIMA
Camundongo submetido a estudo sobre conjuntivite no Instituto de Ciências Biomédicas da USP. Sem animais, não haveria pesquisas, afirmam os cientistas

 

Os ativistas pelos direitos dos animais afirmam que os humanos não têm o direito de infectar, intoxicar ou fazer cirurgias em bichos. No Brasil, esse movimento também ganha uma força cada vez maior. O Instituto Nina Rosa, uma das Ongs de proteção animal mais atuantes no país, produziu o documentário Não Matarás, sobre maus-tratos em pesquisas. O filme mostra coelhos com olhos destruídos por tóxicos e gatos com a pele queimada.

As imagens foram captadas por grupos estrangeiros em laboratórios que testavam produtos químicos para verificar se eles poderiam ser comercializados. As cenas incluem depoimentos de estudantes e pesquisadores brasileiros contrários à vivissecção, além de listas de indústrias que usam animais. “Não conseguimos autorização para filmar em nenhum biotério no Brasil”, afirma Nina Rosa, diretora do instituto. “A intenção não é chocar, mas informar e incentivar a criação de novas técnicas de pesquisa.”

No Rio de Janeiro, a Câmara Municipal aprovou um projeto de lei, de autoria do vereador e ator Cláudio Cavalcanti (PFL), que proíbe o uso de animais em pesquisas científicas. O projeto foi vetado pelo prefeito Cesar Maia. Mas voltará às mãos dos vereadores. Eles decidirão pela manutenção ou retirada do veto. A possibilidade de interrupção das pesquisas com animais causou temor na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), uma das principais entidades de pesquisa biomédica do país.

“Espero que um dia possamos eliminar os experimentos com animais”, diz o veterinário Carlos Müller, chefe do Centro de Experimentação Animal da instituição. “Mas, por enquanto, é impossível.” O cardiologista americano John Pippin, do Physicians Committee for Responsible Medicine, organização de médicos contrários à vivissecção, afirma que ações como as do vereador carioca são estímulos importantes. “Os governos devem forçar os cientistas a desenvolver boas alternativas que substituam as pesquisas com animais”, diz.

A questão que se impõe é uma só: será que essas alternativas existem? Um setor que já começou a se mexer é o de cosméticos. Sob pressão das ONGs, a União Européia aprovou o banimento dos testes de cosméticos em animais. As empresas européias podem se adequar até 2009. No Brasil, a Natura, uma das maiores indústrias de cosméticos do país, segue as diretrizes européias e desde 2003 deixou de testar seus produtos acabados em animais. Alguns dos componentes isolados dos cosméticos ainda são testados em bichos. Mas a indústria selou o compromisso de abolir esses experimentos até o fim de 2006. “Estamos desenvolvendo uma reconstituição de pele humana para testar se as substâncias causam irritação”, afirma Jean-Luc Gesztesi, cientista responsável pela área de tecnologia em pele da Natura.

HUMANOs
Voluntários anotam sintomas durante pesquisa sobre alergia em Tóquio. Testes com animais não substituem as nálises em humanos, segundo os cientistas

 

A cultura de células humanas em laboratório tem sido uma das principais alternativas adotadas pelos pesquisadores para poupar os animais. E não apenas no caso dos cosméticos. Estudos iniciais sugerem que é possível analisar em laboratório se as células do fígado são atacadas por determinadas substâncias. Companhias farmacêuticas, como a Pfizer, começam a investir nessa linha de pesquisa. De acordo com a empresa, as células humanas utilizadas nas culturas teriam sido removidas acidentalmente em cirurgias.

Outra alternativa aos testes com animais, sobretudo no ensino, são os modelos em computador. O uso de animais vivos na formação de profissionais da saúde – a vivissecção em seu sentido original – ocorre quando futuros médicos, biólogos e veterinários abrem o corpo dos bichos e repetem experimentos conhecidos para ter um aprendizado visual. “Em softwares, é possível ver os sistemas do corpo humano, simular reações de camundongos a drogas e até fazer experimentos psicológicos”, diz o biólogo Sergio Greif, autor do livro Alternativas ao Uso de Animais Vivos na Educação.

Apesar dos esforços para poupar animais em todo o mundo, uma nova lei aprovada na Europa deve aumentar o uso de cobaias. Há três semanas, a Comissão Européia determinou que todos os produtos químicos para uso humano aprovados nos últimos 25 anos devem passar por novos testes de toxicidade. A maioria desses estudos costuma ser feita em animais. Atualmente, as pesquisas consomem 1 milhão de cobaias por ano.

Com as novas regras, os cientistas estimam que o continente utilizará 5 milhões de cobaias anualmente. Isso deve ocorrer porque, por enquanto, poucas pesquisas realizadas em animais podem, segundo muitos cientistas, ser substituídas satisfatoriamente por testes em tecidos isolados.

Essa é a opinião de John Martin, do Centro de Biologia e Medicina Cardiovascular da University College London, na Inglaterra. Ele afirma que sacrificar os animais é essencial na sua especialidade. “Faço estudos em células musculares, mas chega um momento em que preciso entender o que acontece no corpo todo e como impedir que o coração pare após um infarto”, disse Martin a ÉPOCA. Ele é membro da RDS, organização britânica que defende o uso de animais em pesquisas. De acordo com Martin, os estudos com células em laboratório são apenas complementares. Podem ser realizados antes dos testes com bichos ou para diminuir o número de cobaias usadas em um experimento. Mas não eliminam a necessidade de sacrificar animais.

FOFOS E INDEFESOS
Coelho preso em gaiola antes de experiência. O sacrifício de bichos tão simpáticos provoca comoção

 

 

 

Os modelos em computador, a outra alternativa que desponta, também têm limitações. De acordo com cientistas, eles ainda são pouco eficazes quando o objetivo é prever como uma droga ou vacina funcionará no corpo humano. O imunologista Luiz Vicente Rizzo, coordenador da Comissão de Ética em Pesquisa do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da Universidade de São Paulo, afirma que apenas 1% das vacinas testadas em programas eletrônicos funciona em humanos. Quando são testadas previamente em animais, esse número é elevado para 50%.

MILITÂNCIA
Nina Rosa, idealizadora do documentário "Não Matarás" , com seus cães vira-latas Zeca e Lobo. O filme sobre maus-tratos sofridos por cobaias em pesquisas estimulou o debate no Brasil pesquisas, afirmam os cientistas

 

No laboratório de imunologia da instituição, Rizzo e outros cientistas usam camundongos para estudar as defesas do corpo humano. Fazem transplantes para verificar se os bichos desenvolvem alguma inflamação. Estudam novos remédios contra a uveíte, doença que atinge os olhos de 100 mil brasileiros por ano. Infectam os animais com conjuntivite alérgica para aprender como combatê-la. “O processo biológico é extremamente complexo. Como verificar se uma substância causará reações nos rins se estou testando em uma cultura de células específicas ou num programa de computador?”, diz Rizzi.

Pode parecer contraditório, mas muitos dos pesquisadores que defendem os testes em animais também afirmam gostar dos bichos. Há 20 anos, a bióloga Silvia Maria Massironi cria camundongos no ICB. Atualmente, conduz uma pesquisa sobre mutações genéticas. Nelas, os animais são postos em contato com agentes químicos, cruzados para obter novas linhagens e amostras de sangue são retiradas deles para análises. Apesar disso, Silvia diz que adora bichos. “Tenho muita pena dos camundongos. Faço o melhor possível para que eles sejam tratados decentemente e para que as pesquisas fiquem boas.”

Depois dos experimentos, os camundongos são sacrificados. Recebem doses altas de anestesia ou inalam gás carbônico. As cenas não são nada agradáveis de ver. Criar animais em biotérios, mantê-los livres de contaminação e anestesiá-los antes dos procedimentos também custa caro. Bem mais caro do que cultivar células ou montar programas de computador. Se os cientistas continuam a usar os animais nos testes, é porque afirmam sentir falta alternativas ao de outros modelos seguros que os substituam.

É verdade que as reações ações observadas nos animais não são idênticas às verifica-das no homem. É esse o principal argumento científico dos que defendem a extinção dos testes com animais. A medicina é cheia de casos de drogas perigosas, aprovadas para uso em humanos porque se mostraram inofensivas aos bichos. O exemplo mais conhecido é a talidomida, calmante retirado de circulação nos anos 60 depois de ter provocado deformações em milhares de fetos. O remédio, receitado para amenizar enjôos na gravidez, havia sido testado em camundongos sem causar danos. Países como os Estados Unidos nunca chegaram a permitir que a droga entrasse no mercado, pois testes em outros animais mostraram alguns efeitos nocivos.

 

CONFLITO
A bióloga Silvia Maria Massironi cria camundongos para pesquisa, mas diz que sente pena deles

 

Há quatro meses, uma empresa alemã testou em animais um medicamento para doenças auto-imunes e permitiu que ele seguisse para a fase clínica, com seis voluntários humanos. Todos tiveram convulsões e foram parar na UTI. Um deles sofreu falência de órgãos. De acordo com Christopher Higgins, diretor do Departamento de Ciências Clínicas na Imperial College London, na Inglaterra, em alguns casos o organismo dos animais não é adequado para reproduzir o que acontece nos humanos. “O único modelo perfeito é o homem. Testes em animais às vezes falham. Mas não podemos dar substâncias possivelmente tóxicas diretamente às pessoas”, diz ele. Cabe à ciência produzir inovações tecnológicas que evitem, quando possível, os experimentos em animais. Até o dia em que um programa de computador consiga detalhar toda a riqueza de um organismo vivo.

 

Fotos: Claudio Rossi/ÉPOCA, Corbis/Stock Photos, SPL/Stock Photos, Thaís Antunes e Claudio Rossi/ÉPOCA

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Útima atualização: 10/12/2008