ONG Cão Viver
DeizeSilvioSimoneFalcão
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Lourinho

Ainda há esperança!
Publicado em 7 de abril de 2013
Idade Sexo Pelagem Porte
Adulto Macho Média Pequeno

Informação

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     Este é o Lourinho. Ele foi um dos machos da matilha da Chicona, uma loba selvagem que viveu nas ruas por 8 anos. Não permitia ser capturada nem se aproximava das pessoas. Há algum tempo, foi atropelada e fraturou a coluna. Foi resgatada e sua única chance de voltar a andar seria uma cirurgia. Morreu durante os procedimentos.

     Embora acompanhasse a Chicona, principalmente por ocasião dos cios, ele tinha como companheira inseparável a Pretinha. Viviam, os dois, em um aglomerado entre o Manacás e a Vila São José, onde algumas pessoas se diziam seus donos, muito embora nem sequer os alimentassem.

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     Em uma ocasião, o Lourinho foi gravemente atropelado e chegou a ficar 15 dias desaparecido. Chegou a ser dado como morto pela protetora que os alimentava. Eis que, um dia, ele reaparece mancando, já recuperado, porém muito magro, demonstrando que passou dias sem comer, talvez por dificuldade de andar e procurar comida.

     Logo em seguida, a Pretinha contraiu pneumonia e, depois, cinomose. Como nenhuma clínica poderia interná-la, foi tratada com antibióticos, na rua mesmo, quando era encontrada. Tinha tudo pra dar errado e a eutanásia chegou a ser sugerida por alguns médicos.

     Eles dormiam ao relento, debaixo de chuva, e comiam, quase todos os dias, apenas o suficiente para se manterem vivos. Logo após a doença da Pretinha, o Lourinho chegou a ser vacinado, o que o livrou de adoecer.

     Por insistência de sua protetora, a Pretinha sobreviveu, passou pelo auge da crise, ficando com algumas pequenas sequelas.

     Logo após a cinomose, a Pretinha foi resgatada e levada a uma clínica, onde foi castrada e fez o pós-operatório, aguardando por um adotante. Mas ela era um daqueles cães que ninguém quer. Sem raça, porte médio e ainda com sequelas de cinomose.

     Como já era de se esperar, o adotante não veio e a Pretinha foi devolvida às ruas, ao mesmo local onde o Lourinho esperava por ela.

     Mas a Pretinha tinha algo especial. Ela havia lutado muito pela vida e não poderia terminar sua história assim. Ficamos conhecendo a Pretinha no tempo em que ela esteve na clínica, já que foi companheira de confinamento da Nina, uma protegida de nosso Projeto. Quando soubemos que a Pretinha havia voltado para a rua, decidimos buscar uma alternativa melhor.

     Tentamos conseguir um lar provisório pra ela, o que ocorreu depois de alguns dias. A Mônica havia adotado a Estrela, também curada de cinomose. Sensibilizada com a situação da Pretinha, decidiu recebê-la em sua casa, até que um adotante aparecesse. Esperávamos um resgate conjunto, mas, agora, pelo menos um deles teria melhores chances.

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     Infelizmente, não seria possível o resgate duplo. A Pretinha teria uma segunda chance e o Lourinho continuaria nas ruas.

     Ao chegarmos no local, avistamos de longe os dois. Haviam acabado de comer e estavam fazendo o que lobos mais gostam: cheirar. Cheiram tudo e qualquer coisa.

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     Quando nos viram, vieram ao nosso encontro, como se perguntassem:

__ É hoje que seremos adotados ?

     A resposta era sim, mas para apenas um deles. A Pretinha seria, finalmente, resgatada. Mas o Lourinho teria que continuar na rua por mais algum tempo, sabe-se lá quanto.

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Pra quem entende os sinais dos lobos, a pergunta era:

__Por que eu também não posso ir?

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     Infelizmente, não tínhamos a resposta. Um nó na garganta, um aperto no peito e o silêncio. Assim, nos despedimos do Lourinho.

     Como explicar pra cães tão especiais que ninguém os quer? Eles trazem no DNA a verdadeira paixão por humanos. Não são capazes de entender porque a recíproca não é verdadeira.

     Mas, enfim, as fotos acima foram as últimas visões que tivemos do Lourinho naquele dia. Ele continuaria na rua, esperando por um milagre. Esperando que alguém o adotasse.

     Anunciamos a história, na esperança de que um adotante aparecesse. E este apareceu, mas aí, depois do resgate da Pretinha, o Lourinho deixou de confiar em nós e fugia como louco sempre que nos via chegar. Ele demonstrava não querer ser resgatado. O tempo passou e seu adotante desistiu.

     Em uma manhã, a protetora que os alimentava sentiu sua falta e descobriu que aquelas pessoas que se diziam seus donos decidiram livrar-se dele.

     Chamaram a carrocinha e ele foi capturado e levado ao CCZ. Passaria por um “exame clínico”, no qual viria a ser avaliada a sua “adotabilidade”.

     Nem precisamos explicar o que isso significa. Exames clínicos para avaliação de adotabilidade? Sem comentários. Animais com sarna, machucados, “feios”, ou mesmo assustados passariam no “exame clínico”? Seriam considerados adotáveis? E qual seria o destino dos reprovados?

     Mas o Lourinho não estava sozinho. Seu sumiço não passou desapercebido à sua protetora. Ele foi resgatado no último dia do prazo, levado a uma clínica onde foi vacinado, castrado, vermifugado, recebendo também um tratamento para a tosse canina que o havia atingido.

     Depois de um tempo na clínica, o Lourinho já estava novamente em ótima forma. Tínhamos esperanças de que o adotante viesse rápido. Mais uma vez, ninguém apareceu.

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     Quando o visitávamos na clínica, ele nos recebia com festa, como se perguntasse: __ É hoje que ganho uma nova casa? Desisti de contar quantas vezes respondi “não” a essa pergunta.

     Como de costume, procuramos tirar as fotos e depois interpretá-las. E, me dando o direito de exagerar nas interpretações, às vezes, me parecia que ele rezava, como se pedisse a protetores invisíveis que o tirassem daquele confinamento, que lhe dessem uma família, um dono. Preciso explicar que, nas fotos abaixo, não havia ninguém ao lado dele. Não saberia explicar pra onde ele estava olhando, e nem porque fechou os olhos e baixou a cabeça.

     Ele teve alta médica e, mais uma vez, o adotante não veio.

     Quando chegamos para buscá-lo e lhe colocamos a coleira e guia, saiu pulando de alegria (pulando literalmente).

     Novamente, o silêncio e um nó na garganta. Ele estava indo para um abrigo. Ele teria ainda que esperar mais alguns dias. Ainda não era desta vez que iria para casa.

     Embora muito bem recebido por lobos e humanos, abrigo não é lugar para criaturas tão especiais. Abrigos devem ser casas de passagem e jamais lares definitivos.

     Mas não tínhamos escolha. Ele foi recebido de braços abertos pela Cão Viver. Logo na chegada, cuidou de percorrer o ambiente, pra depois conhecer seus novos companheiros de confinamento.

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     O líder da turma é o Afonso, um cão já idoso e sem nenhum dente na boca. A fêmea alfa era a Hanna, uma Pinscher legítima de 3 pernas.

     Tinha também o Negão, um cão preto muito dócil e brincalhão que, por coincidência, havia também acabado de chegar na ONG. Os dois se deram muito bem.

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     Mesmo sabendo que ele estaria em ótimas mãos e que ali ficaria apenas de passagem, não pudemos deixar de sentir novamente um aperto no peito.

     Ficamos nos perguntando quando vamos poder contar um “Final Feliz” para o Lourinho. Só podíamos acreditar que ele tinha destino certo. A vida é sempre mais eficiente que a nossa vontade de encaminhá-los. Sempre confiei nela e agora não seria diferente.

     Restava-nos preparar a melhor matéria que pudéssemos, pra tentar abreviar sua estada no abrigo.

     A última visão que tivemos do Lourinho e sua nova turma, quando o deixamos lá, não nos sai da memória.

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     Se tivéssemos a certeza de que ele entenderia, talvez nos arriscássemos a tentar lhe explicar o porquê o estávamos deixando ali, embora não tivéssemos a explicação.

     O Lourinho chegou a ser adotado e devolvido pelo menos umas 3 vezes. Apesar de toda essa docilidade, o Lourinho se mostrou um cãozinho especial. Precisa de donos especiais, que preencham certas condições. Ele pode se tornar um garoto carinhoso e fiel aos donos e muito sociável com outros cães, mas ao mesmo tempo imprevisível, principalmente com estranhos.

     Por isso, ele precisa de alguém que tenha paciência para esperar sua adaptação. Que more em local seguro, sem risco dele sair sozinho na rua. Na ONG, ele fez amigos e se tornou querido por la.

     Aqui, abrimos um parêntese para dar uma triste notícia. A Pretinha não está mais entre nós. Ela teve uma vida de princesa desde que chegou na casa da Mônica. Mesmo com sua estirpe de vira-lata de terreiro, dormia dentro de casa, sobre um sofá. A Mônica a recebeu, oferecendo-lhe lar temporário. Se afeiçoou e decidiu adotá-la.

     Mas, uma grave doença impôs a ela um pesado tratamento. Tudo foi tentado mas ela não resistiu. Lamentamos muito, mas sabemos que nem todos os cães resgatados têm vida longa. Foram alguns meses, mas certamente os mais intensos e felizes de toda sua vida. Ela aprendeu, no pouco tempo em que esteve com a Mônica, as delícias da vida de um cão de estimação, no sentido mais intenso da expressão.

     Ela agora conhece o melhor da vida. Este tempo com a Mônica foi indispensável. Foi a experiência que lhe faltava. Voltará mais forte, saudável e pronta para uma vida plena, do início ao fim, sem atropelos. As fotos abaixo são chamadas, pela Mônica, de “momentos incríveis”.

     Resta-nos rezar por ela e continuar trabalhando para melhorar as coisas por aqui. Esperamos que, quando você voltar, Pretinha, encontre um mundo melhor e mais justo. A Mônica hoje é uma “protetora de animais”. Por tudo que já vimos e experimentamos, temos a convicção de que, quando você voltar, a ela será confiada a sua proteção. Volte em paz. Os protetores que atuam em outro plano farão com que seus caminhos voltem a se cruzar.

     Quanto ao Lourinho, continua no abrigo. Ele chegou arredio, com medo, sem entender direito as regras do mundo. Reencontrou antigos amigos.

     Com o Sr. Bandeira, a festa foi ainda maior. Afinal, a saudade era grande.

     Definitivamente, não é essa a vida que ele merece. Não será mais levado às feiras de adoções. Pra ele, o desfecho terá que ser outro. Ele precisa ser adotado, mas precisa ser por alguém que vá à Cão Viver com o objetivo único de buscá-lo. Já escrevemos isso uma vez, mas não deu. Não era pra ser.

     Nunca desistiremos de encontrar um dono especial pra você Lourinho. Mas preciso confessar que me sinto desanimado. Foram muitas idas e vindas, mas agora, a sensação é de que não existe ainda neste mundo um lugar certo pra você.


Final Feliz

      Eis que a vida do lourinho se cruza com a de outros 3 cães, Pepê, Hulck e Lua, que tiveram uma história de abandono, atropelamento e resgate, indo parar todos na mesma casa, a do Reynaldo. Uma nova vida, uma nova chance, em uma nova matilha.

Depoimento do Reynaldo

“Quem haverá de explicar? Como se houvesse necessidade de explicações para o que a alma humana percebe, a racionalização não entende e o mistério do Universo cuida de manter oculto.

Qual relação pode haver entre dois desconhecidos? Acrescente-se que um deles é um lobo, um cão. Talvez o receio de uma agressão, que na maioria das vezes parte – por ironia – do ser dito racional.

Uma foto. Uma história. Assim foi a mais recente lição de vida que aprendi com os mestres que escolhi para tentar ser um ser melhor: os cães. Um lobinho chamado Lourinho, pela óbvia denominação decorrente de ser companheiro de uma cadelinha de pelagem negra, por isso chamada de Pretinha.

Raça? A mais legítima e preciosa. A que a natureza, sabiamente, criou. Um SRD, Sem Raça Definida, ou vira-latas. Sim, latas de lixo. Até algum tempo, este era o destino inexorável de cães que, filhos enjeitados de outros ditos de “raça”, tinham como oportunidade de sobrevivência. Revirar latas de lixo. Afinal a fome é real e a necessidade de se manter alerta, vigilante, forte e decidido não deixa muitas escolhas para um cão que não tem teto. Ou coberta, comida ou banho. Carinho? Luxo. Bastaria um distanciamento para que a maldade humana não elegesse – sempre – como alvo quem só existe para ser amigo e leal.

Os SRD´s são a essência dos lobos domesticados. Livres, destemidos, autossuficientes e leais. Como lobos em matilha, reconhecessem-se mesmo sem sequer serem apresentados. Intuem. Sabem decifrar sinais e códigos que nós, pobres animais inferiores, se soubemos um dia desprezamos o aprendizado.

Isso tudo para falar de LOURINHO. Que dorme aqui a meu lado, no calor do escritório, mesmo nestas frias montanhas das Gerais. Exausto. Não pelo dia. Certamente pela existência e pela dúvida de uma nova tentativa, de um novo recomeçar. Sem saber – mas saberá – que será a última.

Como explicar, caro amigo Crispim, mais este mistério? Desde que vi a foto do olhar da mais real e profunda dor (cães NUNCA mentem!) quando você o fotografou em companhia da Pretinha, sabia que já havia estado com ele. De algum modo em algum tempo.

E o olhar! Não era só o enxergar. Era muito mais. Era a mensagem que nem em palavras um ser humano conseguiria expressar. “Por que não eu?” .  “Você vai levar minha amiga, a única que tenho, e me deixar aqui e só?” “Por que ou para que vocês apareceram em minha vida?” Posso estar delirando  – mal de cachorreiro – mas vi (e ouvi) cada uma destas palavras naquele olhar. E queria fazer parte da história de mudança do que o Lourinho tem que viver. Já bastava! Rua, fome, agressão, lixo, frio, indiferença e absoluto desamor. Para quem é portador de mensagens que só aos homens surdos (na alma) não conseguem ouvir.

Acompanhei a história de Lourinho. As tentativas infrutíferas de resgate. O esconder dos protetores que tentavam ajuda-lo. A adoção. A devolução. E hoje, ele está aqui., junto à Lua, Pepê e Hulck. Pode parecer pouco, e talvez seja, mas é só essencial.

Não quero ser descrente do mundo. Nem deixar que o niilismo me domine. Ou ainda ser o cético de Pirro acima do crente na evolução humana. Mas a vida tem-me mostrado uma face que não aceito ou não me torno simplesmente aderente. E pago o preço (no fundo é barato) por esta atitude gauche na vida.

Os três me salvaram. Pois são milhares, milhões, em cada centímetro de cada um. São os lobos que, livres, mantém a LIBERDADE e nunca desistem. Agora são quatro. Talvez seja este último o mais arredio, carente e sofrido de todos. Mostrou-se agressivo na Cão Viver, desconfiado no carro no caminho de casa e assustado na presença da trinca dominante. Nada de excepcional. Já esperado. Aos poucos, serão quatro.

A diferença – ou detalhe fundamental – foi a procura de abrigo em mim, de modo imediato. Quase como uma cobrança: “você me trouxe aqui, você me cuida e protege!”. Ok, Lourinho, trato feito. Será cumprido.

Aos poucos deixarei que venha à tona o caráter sem comparação dos SRD’s. A LIBERDADE! Sem a qual eles não são a maravilha genética e quase transcendental que são. Será aos poucos. Passo a passo. Pegada a pegada. Para que saiba que sempre será o mesmo e que tenho orgulho de ser assim. A mim resta acompanhar, incentivar e cuidar para que a natureza faça o resto. Ou o todo.

A trinca saberá receber, aos poucos, mais um colega de vida e de opção de vida – mesmo sem escolha – que eles mesmos têm. Assim foram as primeiras horas – sem nenhuma objetividade, mas real – desta nova dádiva que recebi. E desta vez, com a incumbência de ser mais do que fui com os três anteriores. Sei que Lourinho precisa de um “tutor”. Terá. E ele nunca saberá do orgulho que irá me proporcionar.

Em breve estarei vendo nele, o lobo oculto pelos medos e agressões da rua. E neste momento, saberei que o trabalho valeu. Que o aprendizado mútuo teve sentido. Vou aprender muito com Lourinho. E espero poder dar a ele a chance de descobrir-se o lobo que é. Se assim for – e será! – mais uma vez, nesta troca, sairei ganhando. Afinal, nessa interação somos nós – os adotantes – que ganhamos o presente.

Obrigado ao O Lobo Alfa, Cão Viver, a você e à Tati. Sem saberem vocês conseguem juntar algumas pontas soltas no Universo.

Eu e Lourinho estamos juntos! Valeu!”

 


Lourinho foi apadrinhado por:
• Cristina Souki.
• Karina Mendes.


História retirada do site O Lobo AlfaO Lobo Alfa

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